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Coisas irritantes que os lisboetas fazem

O lisboeta faz de mudo “Ah, tu tens s'taque!”, diziam-me eles sempre que eu abria a boca. Bastava um olá ou coisa assim, e de repente o ar de quem sabia da vida: “És do Porto!”. E eu: “Não, sou do Minho.” Lá vinha um sorriso de quem compreende o outro lado: “Oh, é a mesma coisa.” Mas longe de um lisboeta ouvir que, para um minhoto, o seu s'taque é igual ao de Cascais. “S'taque?” Frazem-me já o sobrolho; afinal, não falam nada assim. “Estás a falar à tia.” Mas é à tia que soa o sotaque lisboeta para quem nasce acima do Mondego. É uma espécie extinta, essa dos lisboetas que têm noção de que também eles articulam sons. Quando se diz “sotaque lisboeta”, lá vêm: “Então mas vocês acham que nós é que temos sotaque?” Isto vem com sorriso escaninho e é uma tarefa inglória explicar que toda a gente tem, mesmo que os alentejanos comam carne de porco e os minhotos comam cabrito e os habitantes de Lisboa prefiram aviar sílabas. É um fenómeno que a melhor das ciências – a linguística, claro – apelidou de silabismo. De t'fone a Caisdsdré, tudo é possível em boca que nasce na MAC – que o capitaleiro acha que o resto do país tem de saber que significa Maternidade Alfredo da Costa. Mas o lisboeta ignora tudo isto, porque não está habituado a viver de outra maneira, e ainda acha que os malucos são os outros. Não apenas é o campeão do snobismo fonético como ainda é glotofóbico que se julga mudo. Claro que quem lê não sabe o que é um glotofóbico, e os lexicógrafos não lhe deram a definição certa – bastava terem escrito que eram os nativos de Lisboa. A glotofobia é a única discriminação ainda bem aceite pelas ruas que se julgam bem falantes da capital portuguesa: é a aversão por grupos em virtude do sotaque que têm. É que, para esta espécie que vive entre nós – e de que o leitor deve fazer parte –, quem não diz q'a gente fomes c'es nosses nam'rades à p'scina é um saloio. 2. O lisboeta acha que não vive numa terra É muito engraçado: Lisboa é o centro e o resto é uma terra. Teve de vir João Marecos, o Belo, para dizer aos seus vizinhos que – santo Deus – Lisboa também é uma terra. Não só dizem que o avô veio “da terra”, deixando aos interlocutores as dúvidas todas – qual delas, a que distância, quanto tempo demorou –, como jamais dirão que Lisboa também é uma. Impensável ouvir um lisboeta no Porto a dizer “Tenho de voltar para a minha terra para ir aos Santos”. Mais impensável ainda, claro, é perceberem que “os Santos” não são para o país todo o nome de uma festa específica. Chamem-lhes Santo António, caramba. Seja como for, o resultado para os nativos é sempre a mesma coisa: na terra de não sei quem faz-se assim, em Lisboa faz-se assado. E, se confrontados com a teoria infame de que este chão assenta em terra, abrem a boca de espanto: “Como assim? Lisboa é a capital.” Ilustração: Nuno Saraiva O lisboeta vê “no norte” uma unidade minúscula, estanque e invariável Quando perguntado sobre a naturalidade de um avô, o lisboeta diz que é do norte. O interlocutor lá repete: “Mas de onde?” E ouve a resposta repetida: “Do norte.” Perante o olhar estupefacto, o lisboeta insiste, piscando o olho: “Do norte, caralho!” É que o lisboeta bem sabe que “no norte” se dizem muitos palavrões ou, em lisboetês, “asneiras”. E, como sabemos todos, os lisboetas dizem muitas asneiras, que por sua vez não são palavrões. Coimbra, Santarém, Aveiro, Porto, Vila Praia de Âncora, uma aldeia qualquer aos pés de Vila Real, tudo isto é liso para um natural de Lisboa. É tudo a mesma realidade, a mesma vida, o mesmo sotaque – e claro que os que lá vivem são todos primos uns dos outros. Por isso, quando um lisboeta diz “No norte, come-se muito morcela de arroz”, jamais atinge que Leiria não representa o lado de cima na bússola nem que, se dividirmos Portugal ao meio, Leiria até fica mais para sul. E, claro, jamais entenderá que muito longe de um vizelense estará a ideia de estragar assim arroz por dá cá aquela palha. Ainda por cima, ainda que não admita, o lisboeta acha que todo o norte é Porto. Pode estar a falar com um gajo qualquer natural de Viseu que invariavelmente perguntará: “Então, não vais à tua terra ao S. João?”. 4. O lisboeta diz que mora em Arroios E os habitantes de Trás-os-montes que adivinhem onde é Arroios. Nisso, fazem lembrar os estado-unidenses: perguntados sobre a sua origem, em vez de dizerem EUA, ou USA, dizem Charlestone, Carolina do Sul, assumindo que, na escolinha, toda a gente do resto do planeta estuda e decora os seus 50 estados. O lisboeta é mais ou menos isto. O Manel diz que é de Coimbra, a Susaninha diz que é de Pampilhosa, o lisboeta diz que é de Arroios – porque é óbvio que Arroios só pode ficar em Lisboa. Tenho um amigo que, coitado, chegado das Taipas a Lisboa, na primeira semana de trabalho, levou um sermãozinho por não saber onde ficava o elevador da Graça. Nem ousou dizer que a única Graça que conhecia era uma antiga tia que tinha fugido com um empresário de Famalicão, depois de uma tórrida história de amor adúltera. É como o lisboeta que conta uma história na televisão para português ver: em vez de dizer que tal e tal se passou num restaurante, diz que etc. se passou no Edmundo, e os pategos que vivem em Piodão que adivinhem que o Edmundo é um restaurante que fica perto da minha rua em Benfica. Ilustração: Nuno Saraiva O lisboeta não quer investir no subúrbio O quê? Meter dinheiro de nós todos na A11, para dois ou três gatos-pingados pouparem cinco minutos por dia no caminho Guimarães-Braga? Nem pensar. A vida é IC19 e Segunda Circular. E já se passa tanto tempo no trânsito que é intragável pensar que o dinheiro dos contribuintes deste país não contribuirá para aligeirar o asfalto lisboeta. Ora, confrontado com a verdade, o lisboeta nega-a: claro que não há milhares de pessoas a usar a A11 todos os dias, transformando 45 minutos em 10; portanto, 90 minutos em 20. Nas outras zonas do país, é sempre meia dúzia, e é sempre pouco tempo. Realmente, o tempo perdido pelos outros nunca nos sabe a desperdício e os impostos dos operários fabris do Vale do Ave podem muito bem contribuir para a linha verde. Claro que o lisboeta acha que não se deve meter dinheiro para melhorar vidas suburbanas. E depois vai para o campo – a parvónia – e acha que tudo fica muito longe: “Ai, que horror viver aqui. Só mesmo para desanuviar um bocado.” O lisboeta não percebe que Sporting e Benfica são iguais Bem me custa dizer aos meus amigos minhotos, quase todos portistas, quase todos anti-Benfica: “Acreditem, o Benfica não quer saber de vocês para nada.” Insistem: “Historicamente, o Porto sempre foi o maior rival.” E sê-lo-á em troféus, mas é verdade que, em Lisboa, a única rivalidade que importa está na Segunda Circular. Isto chocou-me quase tanto quanto ver o Bolsonaro a ganhar a presidência do Brasil – e magoou-me por sentir a rejeição de quem amava. Na minha infância, na minha adolescência, na minha vida, sempre achei que sportinguistas e benfiquistas eram amigos. E isto é coisa que o lisboeta não entende: tão encafuado está numa via rápida, num percurso de um quilómetro ou pouco mais, que se esqueceu de ver que o resto do país não pensa assim. Sporting e Benfica são mais ou menos iguais porque são coisa de Lisboa, e já agora juntam-se o Belenenses e o Fofó só para animar. O lisboeta jamais entenderá que, fora deste canto à beira-mar plantado, os benfiquistas e os sportinguistas dão beijinhos uns aos outros e que jamais acharão graça – ou sequer entenderão – aos horrendos desenhos de leões a violar águias e vice-versa. Posto isto, para que não me confundam com ninguém: viva o Vizela. E o Sporting e o Benfica também, vá. O que estiver mais bem posicionado para dar uma coça ao Porto. O lisboeta tem pena de toda a gente É que o lisboeta acha que a vida lá fora é coisa muito parca. O não-lisboeta sai de casa e dá de caras com um primo, duas tias, dois amantes. Por isso, quem cá mora julga que só aqui há adultério: no resto do país, a coisa torta seria feita à vista da aldeia inteira, e isto porque já se sabe – eheheh – que o resto do país é só paisagem. Fora da capital, não há nada para fazer, mais ninguém joga padel, quase não há metros, e de certeza que só quem vem passear a Lisboa pode experimentar sushi. No resto dos dias, é mesmo vinho verde, tripas e feijoada à transmontana. Com isto, julgam que no resto do país não há nunca nada para fazer, e ainda incentivam os desgraçados a um dia passearem no Colombo: de certeza que, lá nas terras deles, nunca viram nada assim. O lisboeta manda-me já para a minha terra É que já os ouço, no s'taque de quem avia sílabas como eu avio francesinhas: “Olhe, você, se nã gosta de Lesboa, vá masé pá sua terra, nã'acha?”. Mas vão passear: Lisboa é uma terra e agora também é minha. *A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

By Catarina Reis

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