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Desconstrói, querida

Como se meteu a pandemia pelo meio e a Teresa, a nossa amiga em comum, tinha emigrado para sabe deus onde, já não via o Tiago há uns bons anos. E, assim que o vi, pasmei: estava igual, embora com menos cabelo. O choque é esta não-mudança ter acontecido numa altura em que é quase obrigatório mudar-se alguma coisa. Na fronteira entre os 20 e muitos e os 30 e poucos, há coisas que deixam de ser aceitáveis, e ter uma rasta é uma delas. Lá nos encontrámos num chinês em Benfica. Nos tempos idos, era lá que nos metíamos a comer sopa de ninhos de andorinha com a Teresa, o namorado que virou noivo e depois marido, e mais dois ou três do grupo, e agora juntávamo-nos de novo. Da última vez que eu lá fora, o João Neves ainda era esperança para os vizinhos, não coração partido. Ali chegados, com o príncipe de Portugal já no Parque dos Príncipes, o Tiago andava cabisbaixo pelos dois assuntos do costume: o glorioso andava a jogar mal e o coração tinha tantas asas e tanta gente para amar que nunca estava quieto. A partir de dada altura, também os engates que correm mal vão deixando de ser assunto. Haverá maior vitória do que ver Netflix até às tantas? O Tiago, para aí desde 2015, andou em movimentos sociais pro-casa, pro-salário, pro-prostituição, pro-mulher. Pouco depois, até no Climáximo se meteu, e ia ter com os amigos de carro para lhes dizer que não deviam meter fraldas descartáveis aos filhos. Desconstruir e convencer, desconstruir e convencer, assim vive há muitos anos. Ilustração: Nuno Saraiva Isto é coisa para deixar qualquer um cansado, mas, no meio de tanta exaustão, lá conheceu a Leonor por acaso, na sala de espera do dentista, como num filme mau de domingo à tarde. Ora, eu conhecia-a mais ou menos, em parte porque tinha namorado com o meu primo, e ainda hoje me dói que daquela união de cinco anos não me tenham saído priminhos. Bonita e bem vestida, leitora de Roth, graças a Deus, tinha a cabeça no sítio. Nem era preciso ser-se cínico para se julgar que a coisa com o Tiago tinha de dar para o torto. É que o Tiago passou tanto tempo a desconstruir tudo que deixou cair no esquecimento a construção da vida. Bem me lembro de, há uns anos, termos falado do conceito de família: ele insistia que era preciso destruí-la; eu pouco mais queria na vida do que fazer uma com o útero e as mãos; ele dizia que era uma invenção capitalista, eu argumentava que proteger bebés é um impulso biológico; ele, que lera Engels, insistia que só servia para manter a propriedade, eu dizia que até quem nem bolsos tinha sabia o que era amar alguém. A conversa não deu em nada e foi terminada à pressa: como era Dia da Mãe, o Tiago tinha um jantar marcado com os irmãos e a dona Rosa. Voltando à Leonor. Lá estávamos todos no chinês de sempre, agora com noodles e camarão à frente. Eu não via à Teresa há mais de um ano, queria era falar das coisas que importam na vida: o divórcio iminente do Castelo Branco com a Betty, o episódio do Extremamente Desagradável sobre a Andreia Peres, uma influenciadora que me anda a irritar há muito tempo, as políticas fiscais do novo governo. E ele, que tinha tido uma panca de amor a sério, ou o dizia, andava desgostoso porque aquilo tinha ido ao charco. Sem outro remédio, tivemos de esquecer o Ministério das Finanças, já incapazes de escrutinar o Miranda Sarmento, e ouvimos o Tiago, agora de olhos mansos: – Aquilo correu mal porque ela queria mandar em mim. Eu achei aquilo estranho, a Teresa fez cara de emoji. Tão livre, tão solta, tão segura de si, a Leonor nunca seria menina para controlar saídas, telemóveis, nem precisaria de olhar para outras e sentir uma ameaça. O Miguel, enquanto se metia a fazer um puzzle chamado comer pato à Pequim, perguntou qualquer coisinha e lá ouvimos: – Ela não aceitava que eu tivesse paixões por concluir. Mas a vida é assim, um gajo apaixona-se e não se desapaixona assim. E tanto a Cris como a Vânia ainda são importantes para mim. Mas é só naquela de se olhar e gostar, não quer dizer que queira casar com elas, só quer dizer que ainda há ali qualquer coisa, que penso nelas às vezes e que gosto de lhes mandar mensagens. – Natural. Paixões por concluir é coisa que mulher nenhuma aceita, e homem também não. Talvez seja isso que, mal ou bem, tem aguentado a humanidade. – Além disso, qual é o problema de celebrarmos o passado? – Eu pouco dizia, mais interessada no prato, e o Tiago continuava: – É preciso desconstruir estas coisas todas. A posse, o ciúme. Não vejo problema nenhum em enrolar-me com alguém de vez em quando. É descabido pensar que uma pessoa nos consegue dar tudo. Não achas? – Virou-se para mim porque, para mal dos meus pecados, era eu quem estava ao lado. Eu não achava. Ou até achava, mas não daquela forma. Não é preciso um grupinho para que seja possível testar todo o kamasutra. E, sobretudo, parece-me que, na vida como no ringue, só é possível o triunfo se se abdicar de certas coisas. Lá perguntei, sabendo que não, se ela também se enrolava com outros. O Tiago confirmou a suspeita, e acrescentou que ela é que não queria. Isto foi o suficiente para se perceber porque é que ele não estava preocupado. Era um problema que existia só de um lado, e já vimos essa história tantas vezes. Uma delas foi quando fui ao laser da Alexandra no feminino. Quem quer convencer muito é porque tem uma vantagem. Ora, a coisa foi mais longe. Comunicação é importante. E, de acordo com o Tiago, ele e a Leonor não tinham comunicado bem. Aliás, ela é que tinha partido de princípios errados. Já se sabe como é a Leonor. Na cabeça do Tiago, era muito estranho ela ter partido do princípio de que ele não andaria na cama com esta e com aquela. Não tinha havido uma conversa, uma decisão, a resolução de critérios, um pedido de namoro, uma exigência de exclusividade. Ora, não se falando de exclusividade nos meios de esquerda das capitais europeias em 2024, parte-se do princípio de que nem é um assunto. O Tiago, por isso, assumiu que não fazia mal fazer o que fazia e mexeu-se como um puto: os subententendidos seriam uma coisa demasiado à frente, opressiva, digna de gente tão incapaz que nem desconstruída era. Ilustração: Nuno Saraiva Escolher é lixado, porque implica abdicar de alguma coisa, mesmo que não haja mais nada em cima da mesa, mas os tempos modernos são assim: só de pensar numa possibilidade que escapa, há uma taquicardia a acontecer. Espécie de medo de perder qualquer coisa que a Internet nos impôs e que nos faz perder a vida. A ideia de escolher passou a ser um peso: em vez do rumo que se toma, gritam os rumos que não foram tomados. Enfim, pelos vistos lá discutiram quando a Leonor soube que ele tinha andado metido com outras. E, inocentemente, perguntou-lhe, muito parvo: – Mas exiges exclusividade? O Tiago não chegou a dizer-nos a resposta, nem foi preciso. A partir do momento em que a pergunta é feita, só há charco. A exclusividade é como um pedido de desculpas: se é exigida, não conta para nada. E, sem mais, a Leonor seguiu a sua vida, deixando o Tiago no epicentro da confusão teórica. Pois é, o sarcasmo chegou à vida e instalou-se em tudo. Onde havia estrutura, sobrou vazio. O povo desconstrói tanto que não consegue construir. Criou-se uma teoria, a seguir inventou-se a prática, e sobraram feridas que nenhum argumento tem Betadine para curar. Pensar demasiado num abismo faz com que não se consiga tirar as pernas de um buraco, e o Tiago lá andava manco, incapaz de correr para agarrar melhor coisa que lhe tinha passado à frente e que ele nem soube merecer. E, no meio disto, a culpa era dela porque não pensava X, a culpa era dela porque não desconstruía, a culpa era dela por ter caído na normatividade. É que, no núcleo dele, argumentara-se contra isto sem se perceber que sobrava volatilidade, deixando apenas gente à toa sem saber o que esperar. Eu trocava olhares com a Teresa, o Tiago continuava cabisbaixo. Não me cabia dizer-lhe o óbvio. A Teresa, que o conhecia desde o secundário, altura em que ele traficava marijuana pela António Arroio, é que tinha de se amanhar. Em vez disso, o rapaz queixava-se, indiferente ao facto de serem dele as mãos que não serviam para moldar. Eu também não ia meter-me nisso, queria era gyozas de frango. O Tiago pedia cerveja atrás de cerveja, e era a imagem triste de um trintão sem rumo: a cama era uma droga e servia, como maquilhagem, para preencher um vazio momentâneo. Até à sobremesa, torturou a mesa inteira: que ela era assim e assado, que as pessoas têm de se esforçar, desconstruir, esforçar-se, trabalhar. As relações agora dão mais trabalho do que um emprego. E, no meio de tanta teoria, nunca lhe passou pela cabeça esta coisa tão simples: a Leonor não queria viver sem pressupostos evidentes – na longa conversa que é uma relação de amor, há coisas que são acordos feitos em silêncio. Problema dele, claro: por uma noite inócua com a Cris, o Tiago perdeu uma gaja do caraças. *A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

By Álvaro Filho

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