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Febre dos cromos do Mundial esgota lotes em Lisboa

A notícia descreve a nova febre dos cromos do Mundial em Lisboa, com especial foco nos quiosques do Rossio e dos Restauradores. Os primeiros lotes de cadernetas e saquetas esgotaram-se e há uma procura diária por listas de cromos em falta. O texto destaca Albino Rodrigues, o “Rei dos Cromos”, e Marina Clara Antunes, a “Rainha dos Cromos”, que há décadas vendem e trocam figurinhas na zona. Refere ainda que a próxima caderneta terá 980 cromos, devido ao alargamento do Mundial para 48 seleções, e que a parceria da FIFA com a Panini vai terminar após o torneio.

By RUA AI Rodrigo

Os sintomas são conhecidos: ansiedade diante do quiosque de revistas, o calafrio ao virar da página, o tremor nas mãos ao colar a figurinha no respetivo quadradinho, a vertigem de receber na troca com o amigo a tão esperada fotografia do craque da equipa. De quatro em quatro anos, a tradição repete-se. Mudam alguns rostos, alguns nomes – outros resistem, parecem eternos -, mas o que não muda mesmo é a expetativa ao abrir a saqueta e perceber se lá está ele, o esperado cromo do seu ídolo preferido. Em ano de Mundial de futebol, o vírus de colecionar as cadernetas de cromos volta a contagiar os adeptos do planeta. Sign up for our free newsletter. Há mais histórias como esta. Subscreve Basta olhara para o lado e ver: a epidemia dos cromos já está nas ruas e a única terapia possível parece ser mesmo a… Cromoterapia. Uma boa alternativa para completar o álbum já é conhecida dos colecionadores lisboetas, situando-se no estreito enclave do Rossio, onde reis e rainhas dos cromos disputam a atenção do súbditos em busca das últimas figurinhas que faltam para completar a caderneta. Foto: Inês Leote Neste ano, a terapia promete ser intensiva. Com o aumento de seleções a disputar o Mundial no Canadá, Estados Unidos e México, de 32 para 48 seleções, o número de cromos a serem colados na caderneta também subiu, de 670 para 980. O novo recorde de cromos mistura-se ao fim de uma era: a FIFA já anunciou a parceria com a italiana Panini, que desde 1970 tem sido responsável por imprimir a paixão em papel autocolante, de Pelé a Cristiano Ronaldo, de Maradona a Messi. Após o Mundial em Portugal, a parceria acaba. A corrida ao quiosques fez com que os primeiros lotes de cadernetas e saquetas se esgotassem em Lisboa. Diariamente, uma legião de miúdos e miúdas param em frente ao vendedor do Rossio para repetir a mesma pergunta: “há cromos do Mundial?” E receber uma resposta negativa de partir o coração. Um negócio que não para, que nunca está em baixa, uma vez que há sempre uma caderneta de qualquer temática a ser preenchida. Mas que tem os seus momentos altos durante as grandes competições de futebol, quando os miúdos retomam em força as trocas de cromos, as disputas de “bafo” e os apelos a pais, tios e avós pelo ansiado cromo que lhes falta. Ansiedade que começa antes de a bola rolar na América do Norte e continuará mesmo depois de a seleção vitoriosa erguer o troféu. Como atestam os cromos do Mundial Qatar 2022 e da Euro 2024 ainda a trocarem de mãos, uma caderneta não desaparece com o apito final. O Rei dos Cromos e a esperança em Portugal “Se Portugal for campeão, é Natal o ano inteiro”, torce Albino Rodrigues, o “Rei dos Cromos”, encastelado no quiosque diante da agência dos CTT dos Restauradores. A menção ao possível título é um dos raros momentos em que o sorriso lhe surge no rosto, já que uma recente constipação fez uma mossa no humor do comerciante. “Há quatro dias que não venho trabalhar e ainda tenho que parar o trabalho para uma entrevista?”, contesta o Rei dos Cromos, observado de perto por um atento ajudante, a guarda-real do monarca das saquetas, que antes de permitir o primeiro contacto com o senhor Albino, exigiu a apresentação da identificação profissional. O vendedor teima na carpidura, assim como as estrelas da bola, impaciente com a fama. Apontando para o quiosque vizinho: “Vá à Rainha dos Cromos, ela gosta de falar, precisa de publicidade. Eu não, já sou famoso”, insiste, com o ajudante colado ao seu lado, uma espécie de “cromo do Rei dos Cromos”, a concordar com a cabeça. Num quarto de hora, o Rei dos Cromos fez jus ao reinado e despachou meia dúzia de listas de cromos em falta. O ritual repete-se: de tempos a tempos, alguém se aproxima com uma série de nomes e números anotados num papel ou no telemóvel e inicia a contagem das figurinhas para tentar, finalmente, preencher a caderneta. O senhor Albino recupera o fôlego num raro momento de paz. “Esta constipação foi tramada”, queixa-se, “”estava em casa a tentar descansar e o telemóvel não parava, atendia e do outro lado perguntavam: Sr. Albino, o que é feito de si? ”, conta, enquanto o ajudante, inexorável e solidário, sugere que a entrevista já está a demorar. A marcação dos clientes é o ónus da coroa invisível que o comerciante de 65 anos leva sobre a cabeça. Já lá vão mais de três décadas de reinado, anos a fio de cromos a deslizarem entre os dedos, como as cartas na mão de um experiente crupier , ciente de que independentemente de quem vença a competição, a casa vai sempre ganhar. Na cotação das cadernetas, os valores dos cromos não obedecem ao desempenho do seu titular durante a competição. No quiosque, a saqueta com sete cromos sai por 1,5 euro. Embora seja impossível prever precisamente, a estimativa entre os “especialistas” é que completar a nova caderneta de cromos com quase mil figurinhas ronda os 600 euros. Na atual cotação na bolsa de valores dos cromos no Rossio, o cromo comum é vendido a 30 cêntimos. Os mais valiosos, dourados, chegam a 1 euro. Os preços, porém, tendem a subir com a proximidade do início do Mundial. Em 2022, os mais procurados, como o de Ronaldo, Messi ou Mbappé, chegaram a custar 5 euros. Uma Rainha dos Cromos sem herdeiros A poucos metros está Marina Clara Antunes, a “Rainha dos Cromos”, sentada à frente do seu quiosque, a cadeira de praia o seu trono. Diante dela, uma cliente indica o número dos cromos que busca, enquanto a monarca lisboeta vasculha os bolsos. Marina Clara Antunes, a “Rainha dos Cromos”, herdeira de um negócio iniciado pela matriarca, a “Espanhola” dos Restauradores. Foto: Inês Leote Não há um centímetro livre no quiosque. Marina guarda os cromos no bolso do casaco, espécie de cofre. Um a um, os cromos solicitados são repassados para a cliente, que, num esgar de alívio, anuncia que a caderneta do filho está perto de ser completada e a missão da mãe cumprida. Pelo menos, até ao próximo Mundial. A Rainha dos Cromos, solidária com o triunfo materno, também sorri. Aos 64 anos, 40 deles no mesmo quiosque, Marina Antunes já perdeu a conta de quantas vezes pais e avós respiraram de alívio após preencherem as cadernetas e as expetativas de filhos e netos, o último cromo celebrado como o golo do título. Marina aprendeu o ofício com a mãe, também Marina, Marina Glória, a “Espanhola”, como era conhecida a portuguesa filha de espanhóis, desde muito antes de o primeiro quiosque surgir no passeio dos Restauradores, nos anos 1950. “A minha mãe já andava a vender na Baixa, o tabuleiro pendurado no ombro, os pés descalços”, lembra a Rainha dos Cromos. O quiosque foi erguido à revelia das autoridades, nos anos 1980. Marina lembra a mãe, a discutir com os fiscais, a dizer que nem ela nem o vizinho, o senhor Albino, levantariam nada dali. Tinham direito. Pagariam pelo chão onde estavam. E assim foi feito, a “Espanhola” vencera a contenda, uma lutadora até ao último suspiro de vida. Marina herdou o reinado. Uma dinastia sem sucessores, pois Marina não teve filhos. “São muitos anos a bater”, testemunha a rainha sem herdeiros. “Tia”, sim, dos miúdos levados pelos pais e avós para trocarem os cromos, muitos desses pais, avós de hoje, miúdos de outrora, gerações a reverenciarem a monarca dos Restauradores. Um rapaz substitui a mãe na busca pelos cromos. Dona Marina vasculha os bolsos, como o mágico numa cartola, e retira o sonhado cromo da Seleção do Brasil, com o sorriso de Vinícius Júnior na fotografia a acompanhar o do novo dono da figurinha. A Rainha dos Cromos também tem os seus truques. O abarrotado quiosque de dona Marina. As trocas ocorrem no passeio por pura falta de espaço. Foto: Inês Leote Um bom negócio parece resumir a “febre” dos cromos durante o Mundial, uma atividade paralela aos temas do futebol. Em nenhum dos três principais sítios de venda em Lisboa se ouviu um único comentário referente à bola, o elogio a um golo marcado, a polémica de um lance, a aposta sobre quem será o campeão. Um pouco como acontece nas principais competições internacionais, no mundo dos reis, rainhas e príncipes dos cromos, o futebol parece ser o de menos, um relvado invadido pelo negócio, a alegria e o sorriso das crianças apenas uma boa desculpa para se garantir a renda enquanto a bola está a rolar.

FIFA termina parceria histórica com a Panini após o Mundial

A FIFA anunciou o fim da parceria com a italiana Panini, responsável pela impressão das cadernetas desde 1970. O texto enquadra a decisão como o encerramento de uma colaboração longa associada a várias gerações de colecionadores.

Febre dos cromos do Mundial esgota lotes em Lisboa

A procura por cromos do Mundial voltou a intensificar-se em Lisboa, com os primeiros lotes de cadernetas e saquetas a esgotarem-se. No Rossio, muitos adeptos passam diariamente pelo quiosque para perguntar se já há cromos disponíveis.

Rossio Santa Maria Maior situando-se no estreito enclave do Rossio, onde reis e rainhas dos cromos disputam a atenção do súbditos em busca das últimas figurinhas que faltam para completar a caderneta.

Rei e Rainha dos Cromos mantêm negócio no Rossio

Albino Rodrigues, o “Rei dos Cromos”, e Marina Clara Antunes, a “Rainha dos Cromos”, vendem e trocam cromos nos quiosques do Rossio e dos Restauradores. Os clientes chegam com listas de faltas e o movimento repete-se como um ritual em dias de grande procura.

Rossio Santa Maria Maior situando-se no estreito enclave do Rossio, onde reis e rainhas dos cromos disputam a atenção do súbditos em busca das últimas figurinhas que faltam para completar a caderneta.
Restauradores Santa Maria Maior encastelado no quiosque diante da agência dos CTT dos Restauradores.

Mundial alargado para 48 seleções aumenta a caderneta

Com a passagem de 32 para 48 seleções no Mundial, o número de cromos sobe de 670 para 980. A caderneta passa a ser mais extensa e mais cara de completar, segundo a estimativa citada no texto.

Canadá Com o aumento de seleções a disputar o Mundial no Canadá, Estados Unidos e México, de 32 para 48 seleções, o número de cromos a serem colados na caderneta também subiu, de 670 para 980.
Estados Unidos Com o aumento de seleções a disputar o Mundial no Canadá, Estados Unidos e México, de 32 para 48 seleções, o número de cromos a serem colados na caderneta também subiu, de 670 para 980.
México Com o aumento de seleções a disputar o Mundial no Canadá, Estados Unidos e México, de 32 para 48 seleções, o número de cromos a serem colados na caderneta também subiu, de 670 para 980.

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