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João, o varredor de São Vicente que escreve livros contra o lixo em Lisboa

Há três anos que João Paulo Almeida, 34 anos, varre o lixo das ruas da freguesia de São Vicente, onde sempre viveu. Tantas vezes desmotivado, ao ver o lixo acumular-se numa cidade apelidada de "suja" por quem cá vive, acaba por perder-se em pensamentos: “Às vezes são músicas, histórias, filmes, conversas...”. Quando dá por si, já percorreu toda uma rua e nem deu por isso. Foi num desses momentos, de total alheamento, que uma personagem emergiu do imaginário dele: uma criança muito preocupada com as ruas e a higiene urbana, e que João batizou com o nome da sua freguesia - Vicente. “Eu lembro-me de estar na rua e lembrei-me: ‘Se eu não consigo chegar aos adultos, que tal tentar chegar às crianças?’”. Ao terminar o trabalho nesse dia, João foi para casa e pôs-se a rabiscar no tablet de desenho... até o encontrar, ao Vicente, esse ser verde e sorridente que passeia por lugares bem conhecidos de João – esses mesmos que ele percorre diariamente -, como Santa Apolónia, a Voz do Operário e o Panteão Nacional. Vicente tem uma missão: ver as ruas livres de lixo. Há anos que moradores se queixam deste problema na cidade, com falhas na recolha e na lavagem das ruas - e as pragas a aumentarem por conta disto. O que até já motivou movimentos de cidadãos como este. Foto: Líbia Florentino Com o herói encontrado, João fez nascer logo três histórias, escritas e ilustradas por ele. São elas o Mistério em São Vicente!, Um micromundo em São Vicente! e A origem do herói de São Vicente - entretanto editadas pela Junta de Freguesia e divulgadas junto das suas escolas. Mas, afinal, quem é o artista por detrás desta criação? E como surge a vontade de alertar os mais novos para a importância da higiene urbana? O artista por detrás do Vicente João Paulo Almeida nasceu em São Vicente e sempre fez vida entre esta freguesia e a zona de Alfama. “Passei a minha infância na zona do Panteão, era lá que jogava bola, que brincava, desde sempre.” Hoje, é aqui que continua a viver, e a trabalhar. Mas a história de João vai muito para além da freguesia que varre todos os dias, numa caminhada cheia de altos e baixos. É uma história de desenhos, de palavras, de representação e até mesmo de cinema. Nos anos 90, João lembra-se bem de ser pequeno e de assistir ao “Dragon Ball” na televisão, tentando recriar no papel as personagens preferidas. Na escola, ocupava as aulas de Inglês, uma disciplina em que era particularmente bom, e as aulas de Matemática, uma disciplina em que era particularmente mau, a desenhar. E a escrever - uma paixão que foi também descobrindo com o passar dos anos. João Paulo Almeida sempre viveu na freguesia de São Vicente. Foto: Líbia Florentino Mais tarde, quando chegou a altura de escolher uma área no secundário, abriu na escola dele um curso profissional de Teatro que, felizmente para ele, não incluía a disciplina de Matemática. “Na altura, gostava de brincar. Quando surgiram os primeiros telemóveis com câmaras, eu e os meus amigos começámos a fazer pequenas curtas, brincadeiras...”. Foi enquanto tirava o curso de Teatro que passou também a trabalhar na KidZania, o parque infantil temático no centro comercial UBBO, na Amadora, estabelecendo assim contacto com os mais novos - um público ao qual se viria a dedicar mais tarde, ao trabalhar como monitor numa escola na Penha de França. “Tentei ser um monitor divertido, um brincalhão." Entretanto, há três anos, candidatou-se a varredor na sua Junta de Freguesia, e o teatro, e também o cinema (área em que chegou a iniciar uma licenciatura) foram ficando para trás... Varrer as mesmas ruas todos os dias “Imagina o que é todos os dias andares cerca de 10 km, aos ziguezagues, aos altos e baixos, ao vento, ao frio, ao sol. Entras em modo automático.” Com o passar do tempo, João começou a sentir que estava a pôr de lado a veia mais criativa. Mas não era só a monotonia do trabalho que o incomodava, era também o desrespeito que sentia para com a profissão que agora exercia: “Sei que há sítios onde passo todos e dias e onde apanho exatamente o mesmo lixo... não somos valorizados, e ainda por cima somos pagos a recibos verdes", denuncia. E, por isso, João começou a questionar-se sobre o que poderia fazer para se sentir mais realizado no trabalho. "Foi então que me apercebi que tinha saudades de escrever, que tinha saudades de desenhar... E uma coisa que eu penso é que uma pessoa nunca deve deixar de fazer aquilo de que gosta. Nós temos de arranjar tempo para fazer aquilo de que gostamos e que de facto nos faz feliz.” Aliou, então, o útil ao agradável. João Paulo Almeida é varredor na Junta de Freguesia de São Vicente. Foto: Líbia Florentino Foi assim que nasceu o Vicente: dessa necessidade de João Paulo se expressar artisticamente, mas também de explicar a importância da profissão aos mais novos. No tempo livre, começou a fazer experiências num programa de animação digital, cruzando várias técnicas de desenho, até chegar ao resultado final. O herói Vicente O primeiro livro, O Mistério de São Vicente, conta a história de um vilão que está a fazer algo de errado na cidade. E que, claro, tudo tem que ver com o lixo que é depositado nas ruas. A segunda história continua a aventura pela cidade, mas a terceira responde a uma questão de fundo: “Quem é o Vicente? De onde é que ele veio?”. A ideia de mergulhar no passado deste herói surgiu quando João Paulo descobriu, na rua, livros infantis do Peter Pan, que contavam a história de uma fada, a Sininho. “Lembrei-me que ainda não tinha contado a origem do Vicente.” O Vicente é um menino que veio do campo para a cidade, surpreendendo-se com o caos e o lixo. “O Vicente, no início, quando olhava para a rua a partir de casa, via tudo escuro, tudo negro... mas depois, começa a interagir com as pessoas, a tentar ajudá-las e às ruas!”. O Vicente mudou-se do campo para a cidade, assustando-se com o lixo nas ruas. Foto: Líbia Florentino João Paulo levou estas histórias à comunidade escolar para alertar os mais novos para a problemática do lixo e da reciclagem, mas não quer que as aventuras desta criação fiquem por aqui: o autor tem já ideias para um próximo livro, esse sobre o desperdício da água. João explica: “Uma coisa que eu odeio fazer aqui na Junta é lavar as ruas. Eu sou da opinião que há muitas ruas que simplesmente não precisam de ser lavadas. Nós estamos a falar de milhares de litros que são gastos nestas lavagens!”. Enquanto vai desenvolvendo estas ideias, João procura também editoras para darem continuação à vida do Vicente, relembrando aquela que é a essência deste menino: “Qualquer uma pode ser o Vicente, qualquer uma deve ser o Vicente. Nós todos temos o Vicente em nós, porque a cidade não é só de uma pessoa, é de todos.” O lixo na cidade - explore o mapa: Em Lisboa, há três tipos de recolha de lixo: porta-a-porta (em zonas específicas da cidade, para o comércio e a restauração, e nos bairros históricos); de proximidade (sem caixotes do lixo, apenas com contentores no bairro - sejam de orgânico seja de reciclagem); seletiva pontual (recolha de monos e entulhos); Descubra, neste mapa, as diversas zonas de Lisboa de acordo com o sistema diferente de recolha de lixo e a localização dos contentores, ilhas e ecopontos:

By Ana da Cunha

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