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Morreu Celeste Caeiro, a mulher que trocou as balas de uma espingarda por cravos e marcou a revolução

Celeste Martins Caeiro já havia entrado para a história em 25 de Abril de 1974, ao protagonizar o gesto que seria a imagem e batizaria uma revolução. Neste 15 de novembro, a reformada, ex-empregada de mesa e costureira que substituiu as balas de uma espingarda por cravos morreu, aos 91 ano, entrando, portanto, mais uma vez para a história. Em 2022, o ilustrador Nuno Saraiva pintou em palavras a mulher que pintou Lisboa de vermelho-cravo, numa rubrica na Mensagem onde homenageava os e as Grandes Alfacinhas. É o texto que se segue abaixo: Todos os grandes momentos da História são cantados por odes por vezes demasiado líricas ou desequilibradamente romanceadas. Um dos maiores mitos urbanos à volta do dia de 25 de Abril de 1974 está na origem dos cravos nos canos das espingardas dos soldados – a imagem de marca que sempre perdurará da revolução - episódio que durante alguns anos se atribuiu às floristas do Rossio personificadas em tágides que aclamam e inspiram os nossos guerreiros. Mas a verdadeira história é menos epopeica, mais simples embora mais rica. Tudo começou num restaurante no edifício Franjinhas da rua Braamcamp com pinta de modernice chamado “Sir” que adotava o método do self-service e que já apostava em técnicas de marketing. O dono tinha mandado comprar “toneladas” de cravos para oferecer aos clientes no dia 25 para celebrar o 1ºaniversário do estabelecimento e estava no impasse entre ter que fechar por causa de um Golpe de Estado e ter que deixar as flores estragarem-se armazenadas. Como era despachado, ofereceu um grande molho a cada empregado, entre os quais se encontrava Celeste, e assim não morriam em vão. Celeste Caeiro regressou assim até à sua casa que ficava no Chiado, abraçada aos cravos. Percorreu a Avenida da Liberdade, atravessou o Rossio e subiu a rua do Carmo, entre uma multidão. Aí deparou-se com uma chaimite à esquina da rua Garrett. Celeste paralisa frente a um soldado de G3, com cara de muitos amigos e pergunta-lhe: - “Para onde vão? O que vai acontecer?” - “Vamos para o (largo do) Carmo prender o Marcelo (Caetano). Já agora, a menina não tem aí um cigarrinho?” - “Cigarro não, que não fumo. Mas posso-lhe oferecer um cravo, tenho muitos!” O resto da história é conhecido. O soldado enfia o caule da flor no cano da sua espingarda. O camarada do lado também quer e Celeste oferece-lhe outro. Por ela passam mais soldados, a cada um, um cravo. Um fotógrafo (seria o Eduardo Gageiro?). Outro fotógrafo (o Alfredo Cunha?). Quando se lhe esgotam os cravos, Celeste é imitada no gesto por gente na rua que corre a comprar nas floristas, que logo solidárias as oferecem. Assim nasceu um quadro pintado a vermelho vivo (e algum branco) que perdurará para sempre na imagética da Revolução de Abril. E tudo por causa de uma manobra de marketing falhada num café da moda… e de um cigarro que não havia!

By Catarina Pires

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