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Não precisava Lisboa ter-se tornado assim... tão Brasil

Não precisava, Lisboa, não precisava. Já me sentia acolhido ao ouvir a língua materna também do Brasil declamada nas ruas, no rescaldo do resultado da bola numa tasca, na conversa fiada do vizinho com a velhota que via o mundo passar de uma janela em Alfama, queixando-se da gota que a impedia de cumprir alguma tarefa doméstica. Faz 20 anos que pisei em Lisboa pela primeira vez, na volta da cobertura jornalística nas Olimpíadas de Atenas, antes de retornar ao Brasil. Após um mês a lidar com um idioma que para mim parecia grego - até porque, afinal, era mesmo grego - o português soava como música para os ouvidos, como na propaganda da TAP na contracapa da Veja, anunciando uma Europa que fala a sua língua. Pois é Lisboa, não precisava. Já me sentia em casa, uma casa com uma decoração mais antiga, é verdade, como a casa da nossa avó, mas e daí, vamos combinar, nada mais aconchegante do que a casa da avó, a mobília escura a reluzir, o aroma de óleo de peroba misturado ao doce perfume de lavanda e talco da vozinha. Saudade, vovó Lulu, saudade, vovó Adair, o seu neto segue aqui a honrar o vosso carinho e memória. Saudade também dessa Lisboa ao mesmo tempo familiar e estranha e, por isso mesmo, sedutora, desafiadora e encantadora. Uma Lisboa que nos permitia viver um passado medieval que o Brasil nunca conheceu, com reis, rainhas, uma corte e os seus cavaleiros, mas também arrasado por pestes, terremotos, pela Inquisição e até pelo velho Napoleão. Já bastava e não precisava, Lisboa, ir mais além disso para nos fazer sentir em casa E passar a cometer por aqui os mesmos erros do meu Brasil. Ilustração: Nuno Saraiva. Não precisava, Lisboa, dos autocarros sempre em atraso e lotados, das paragens às escuras, o passageiro um náufrago à deriva, sinalizando para o condutor com a lanterna do telemóvel, como num concerto dos Coldplay. Não precisava, Lisboa, dos engarrafamentos e das buzinas estridentes, trombetas do apocalipse de um trânsito apocalíptico onde o peão, em vez de protegido, é alvo. Não precisava, Lisboa, do metro que não passa confiança, das escadas rolantes que não funcionam, dos letreiros a dizerem que o metro vai chegar daqui a cinco minutos e não chega nunca, como os malandros das canções do Chico, perdidos no caminho da oficina para casa, onde há sempre um bar em cada esquina para comemorar sei lá o quê. Qual o quê, Lisboa, não precisava. Do lixo acumulado nas ruas, das caixas de cartão empilhadas numa esquina a amparar as pernas de um manequim sem tronco, a duvidosa instalação de arte contemporânea a céu aberto. Da ciranda noturna das ratazanas, a dançar sob a luz da lua, ruminantes feiticeiras dos esgotos, na saltitante companhia de pulgas e percevejos. Do chichi no canto dos muros, como o xixi no canto dos muros do meu Recife, pois seja com cê-agá ou com xis, o cheiro a amoníaco-nostálgico é o mesmo. Mesmo assim, não precisava, Lisboa. Não precisava. LEIA TAMBÉM: Não precisava também, Lisboa, de facas a zunir, cortando o ar e o ventre, do sangue na barbearia, provocado não pelo pequeno deslize do barbeiro no retoque com a navalha, mas por três tiros tristes de uma arma de fogo. Não precisava, Lisboa, do perigo nas ruas para quem lá anda, como quem anda nas ruas do meu Brasil. Ou do perigo para quem nas ruas vive, nas tendas dos sem-abrigo, uma desolador acampamento, lar ao relento de quem não tem teto nem afeto e quando vê uma mão a ser estendida é apenas para apontar o dedo, recriminatório. Não precisava, Lisboa, de uma extrema-direita a dividir as pessoas, os irmãos e os amigos, subtraindo a generosidade e a esperança, multiplicando o ódio, elevando a xenofobia ao cubo. Noves fora, nada, não precisava, Lisboa. Não precisava, Lisboa, do racismo de cor e de classe social, da multiplicação das favelas, favelas nível primeiro mundo, é verdade, horizontais e de betão, mais modernas do que as de tábuas dos nossos morros, mas em compensação, sem vista para o mar. Não precisava, Lisboa, da polícia como no Brasil, com o dedo sempre nervoso no gatilho e das pistolas com mira de visão noturna, ou melhor, com visão de cor de pele noturna. Sei que temos isso lá no Brasil, Lisboa, tanto sei que foi por isso que de lá partimos, para tentar contribuir com uma espécie de Brasil que, afinal, parecia ter dado certo, um porto seguro para os brasileiros perseguidos pela tempestade do medo e da falta de esperança. Assim como os portugueses em fuga de suas tormentas precisaram de um Porto Seguro, cinco séculos atrás, e encontraram-no no meu Brasil. Sei que tudo isso foi para nos sentirmos ainda mais em casa, Lisboa, mas já estava tudo muito bem, obrigado, não era era necessário ir mais além. Para falar a verdade, Lisboa, era até dispensável.

By Álvaro Filho

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