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O Relâmpago deu vida à prova de ciclismo mais íngreme de Lisboa: a rampa do Vale de Santo António está de volta

https://www.instagram.com/reel/CyKCs2cIwSl/?igshid=MTc4MmM1YmI2Ng%3D%3D São amigos. Une-os a paixão pelo associativismo, as coletividades de bairro e, sobretudo, o desporto popular. Gostam de futebol e rejeitam a lógica, seguida pelos grandes clubes, do “circuito comercial dos milhões”. Por isso, apoiam os clubes mais pequenos, assistem aos jogos das distritais. Acompanharam o Belenenses, quando o clube desceu à distrital de Lisboa, e saltitam de campo em campo. Apoiam o Oriental de Lisboa, o Operário e vão até à margem sul, ver o Seixal. Quiseram fundar um clube e fizeram-no. O objetivo era fazer renascer o associativismo e o apoio à comunidade a partir da vida dos clubes. O impacto pode acontecer através da força aglutinadora que exercem, creem. Para Vasco Alves, Ricardo G. e Pedro Pereira, a forma de agir “ultrapassa muito a coisa do desporto”, mas parte dali, do desporto, da coletividade. Vasco conta como queriam trazer “a comunidade para a rua”, tirar partido das ruas “como espaço comum” e lutar “contra esta ideia da quase privatização geral de tudo, do lado do negócio”. Pedro Pereira, Ricardo G. e Vasco Santos. Foto: Rita Ansone A ideia crescia e, no meio de documentos históricos, descobriu-se que houve um clube em Marvila chamado Relâmpago Futebol Clube. Durou apenas dois anos, de 1932 a 1934. Estava escolhido o nome. Não era um renascer do antigo clube, pouco sabiam sobre ele, mas “acabou por ser uma espécie de inspiração”. O objetivo, conta Vasco, estava traçado: “trabalhar na comunidade, trazer o desporto para a rua, fomentar o associativismo, trabalhar com associações que já existem, dinamizá-las, voltar a dar-lhes a vida que outrora tiveram”. A Associação Desportiva Recreativa “O Relâmpago” começou a formar-se em meados de 2019, realizou o seu primeiro jogo, já com as camisolas do clube, em agosto de 2020, e em maio deste ano celebraram a oficialização, em Marvila, junto à antiga sede do Relâmpago dos anos 1930. Têm órgãos sociais, “mas a ideia é ser uma coisa horizontal”, com assembleias em que todas as pessoas podem participar e apresentar uma ideia. “Pelo desporto popular” - é o mote. Se, antes, o clube juntava as pessoas do bairro, hoje não é exatamente assim. No Relâmpago não vêm todos do mesmo sítio, o que os une é “uma ideia em comum”, mas juntam-se todos pelas zonas de Santa Engrácia, Penha de França e Graça. É ali que vão ganhar raízes e é por ali que prometem encontrar sede a “muito curto prazo”. E querem que o desporto popular possa “servir de ferramenta comunitária para atingir outros fins”, explica Ricardo. O Mirantense Futebol Clube, fundado em 1935, é um dos pontos de encontro habituais dos relampaguistas. Do Relâmpago ao Mirantense: o reeditar de uma prova de ciclismo apagada durante 67 anos Com seis anos de vida, em 1941, o Mirantense, clube da antiga freguesia de São Vicente de Fora, realizava a primeira Subida da Rampa do Vale de Santo António. A dura prova de bicicleta, realizada pela última vez em 1954, obrigava os participantes a trepar centenas de metros da íngreme rua que liga Santa Apolónia, ao nível do rio, à Rua dos Sapadores, bem no topo de uma das colinas de Lisboa. Registos históricos da prova. Fonte: Associação Desportiva Recreativa "O Relâmpago" e Mirantense Futebol Clube Lina Cortes é a ex-presidente do clube há quatro anos. Na altura em que a encontrámos, em 2021, pegou nos recortes de jornal que não deixam a memória da rampa morrer e mostrou-os aos mais novos, que hoje formam o Relâmpago. E os relampaguistas “espicaçaram” os mais velhos. Por que não reeditar a mítica prova? Também será assim que se ajuda a trazer a vida de volta às coletividades de sempre. Assim aconteceu. Depois de uma vagarosa paragem de 67 anos, a mítica prova de resistência e contrarrelógio regressou à Rua do Vale de Santo António, em 2021, com um percurso ligeiramente diferente. Se antes percorria 900 metros e começava na Rua Caminhos de Ferro, serão agora 600 os metros a percorrer pelos participantes, com inclinações que chegam a atingir os 22% e com uma secção intermédia que atinge os 15% de inclinação média. Lina Cortes, ex-presidente do Mirantense Futebol Clube. Foto: Rita Ansone A subida inicia-se na Rua do Mirante, para permitir que “nesse bocado os ciclistas ganhem algum balanço”. Depois, é “sempre a subir”, explica Vasco, trepando a totalidade da Rua do Vale de Santo António até ao cruzamento com a Rua dos Sapadores. Perfil da rampa e cartaz da reedição da rampa. Fonte: Associação Desportiva Recreativa "O Relâmpago" e Mirantense Futebol Clube O limite de participantes estava fixado nos 60. Em todas as edições da prova, o máximo teria rondado os 40. A reedição da prova levantou um interesse tal que todos os recordes de participação foram batidos. As inscrições terminaram no passado domingo e o limite previsto foi levantado. No próximo domingo, 15 de outubro, serão 120 os ciclistas a subir a Rampa do Vale de Santo António. A vontade do Relâmpago e do Mirantense é “manter a continuidade anual” da prova, diz Ricardo. A subida da rampa. A voracidade imobiliária quase levava consigo um histórico da cidade A voracidade imobiliária despejou o histórico Mirantense da sua sede de sempre, o número 15 da Rua do Vale de Santo António. Chegou-se a pensar que o clube, que formou campeões de ténis de mesa, tinha equipa de futebol e oferecia, aos fregueses, várias modalidades desportivas, podia não resistir. A saída forçada do número 15, há dois anos, podia ter sido o fim, mas os conhecimentos de décadas, daquelas ruas e daquelas pessoas, as que ainda permanecem, trouxeram nova oportunidade ao Mirantense. Uma dezena de metros acima, pela íngreme rua, está o número 33. É a nova casa. Não tem o salão - e as portas de salão - de outrora, não tem o chão de madeira. Mas é a nova casa. Tem espaço, dignidade, e conseguiu-se o mais importante - ficar no sítio, no bairro. No corredor que dá acesso à sala interior, e nessa mesma sala, também, acumulam-se os troféus e as memórias que evocam um passado maior. Mas o clube persiste. Os registos dão conta de mais de 800 sócios. Hoje, não são tantos. Mas pouco depois da abertura das portas, a uma sexta-feira, a atmosfera não mentia: este não é um clube moribundo. O interior da nova sede do Mirantense. Foto: Rita Ansone Há sócios que fazem do clube casa há mais de 60 anos. Se mudasse de bairro, o clube provavelmente não resistiria, conta, à Mensagem, Lina Cortes. “Perdíamos toda a identidade”, diz. Podia acontecer o que aconteceu a várias outras coletividades da cidade que se viram deslocadas dos bairros em que nasceram: deixaram de existir. “Ainda bem que aparecem jovens que querem lançar o associativismo, porque está a perder-se muito o espírito da coletividade”, suspira Lina, que frequenta o Mirantense desde os 10 anos de idade, pela mão do pai. Hoje, vai a casa para dormir, apenas. E explica que o clube se mantém com o trabalho voluntário dos seis elementos da direção, mas também “com muita carolice”. O clube ia muito além do desporto, unia a comunidade. “No Natal, eram distribuídos cabazes aos sócios mais carenciados, vestiam-se as crianças”. Chegaram a vestir-se 50 num desses natais, conta. O Relâmpago quer seguir o mesmo caminho. Ricardo G., um dos sócios relampaguistas, reafirma um dos objetivos fundadores, que parte do trabalho que as coletividades da cidade, outrora, fizeram: “servir de ferramenta comunitária para atingir outros fins”. Uma viagem a pedal e uma camisola de ciclismo Vasco, relampaguista, decidiu viajar de bicicleta no verão de 2020. Não sem levar o Relâmpago com ele. Mandou fazer a primeira camisola de ciclismo do clube e foi com ela vestida que pedalou, durante oito dias, os 720 quilómetros da Nacional 2, de Chaves a Faro. “Foi uma espécie de motivação extra, fazer o país de norte a sul com as cores do Relâmpago”, conta. E foi o início, também, do ciclismo no recém-fundado clube popular. https://www.instagram.com/p/CPHS_pJLdnh/ Hoje, o Relâmpago oferece futebol (também feminino), ciclismo, aulas de auto-defesa, atletismo, boxe e xadrez. A subida da rampa foi a primeira iniciativa do clube nas duas rodas a pedal, mas as aulas de auto-defesa já realizavam em jardins da cidade. São abertos, de participação livre e gratuita. No inverno de um clube ainda sem casa, poderão parar. Mas o objetivo, assim que haja sede, é que se façam lá os treinos, “termos um espaço, um tatami”, explica Ricardo. Às sextas, há futebol. Há quem vá pelo jogo e há, também, quem vá pelo convívio, pela comunidade que nasce em torno da atividade do clube. Uma mensagem política no jogo das sextas-feiras Às sextas-feiras, o Relâmpago organiza convívios. Joga-se futebol, habitualmente no Clube Desportivo da Graça, no Grupo Desportivo da Mouraria ou em Santa Engrácia. Joga-se em equipas mistas. “Fomentamos muito essa ideia”, conta Vasco, acrescentando que recentemente realizaram o primeiro jogo “só feminino”. Na sexta-feira, 8 de outubro, o jogo do Relâmpago aconteceu no Centro de Cultura Popular de Santa Engrácia. Foto: Rita Ansone Nas bancadas, conversa-se. A pandemia atrasou muitos dos planos do clube, mas os jogos retomaram. No futuro, o Relâmpago quer trabalhar com crianças dos bairros em volta e quer conseguir integrar jovens refugiados nas suas equipas. Em Portugal, consideram-se “pioneiros”. “Com os moldes e valores que defendemos, não existe [outro clube]”, considera Ricardo. “Não com esta linha vincada de desporto popular e de ligação à comunidade, inclusivo”. https://www.instagram.com/p/CUzlPhQskXN/ No final dos jogos, as pessoas juntam-se, é tirada uma fotografia e exibem-se cartazes. De solidariedade com a ocupação da Palestina ou, como aconteceu no início de outubro, com os trabalhadores da Saint Gobain, vidreira de Santa Iria de Azóia, que enfrentam um processo de despedimento coletivo. *Texto publicado originalmente a 15 de outubro de 2021

By Frederico Raposo

O Relâmpago deu vida à prova de ciclismo mais íngreme de Lisboa: a rampa do Vale de Santo António está de volta

O Relâmpago é pelo desporto popular e juntou-se ao Mirantense, de São Vicente, para reeditar a subida do Vale de Santo António, uma íngreme rampa lisboeta. A prova, criada em 1941, foi reclamada 67 anos depois da última edição, em 2021. Este ano está de volta e a varanda adepta mais bem enfeitada será premiada.

Rampa do Vale de Santo António São Vicente Os participantes pedalam por 600 os metros com inclinações que chegam aos 22% e com uma secção intermédia que atinge os 15% de inclinação média.

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