Quem quer casar com… a diva?
Há uns anos, Camané cantou durante um concerto ao vivo um fado bastante fora da caixa chamado Gola Alta que eu nunca ouvira antes; ora, como artista sério que é, no fim informou o público de que a letra lhe tinha sido oferecida pelo poeta Henrique Segurado – e aquele nome tocou campainhas na minha cabeça, mas não consegui lembrar-me de onde o conhecia. https://www.youtube.com/watch?v=1mvJ489g_rE Chegada a casa, acabei por recordar-me de que Henrique Segurado (Pavão) fora um dos fundadores das Livrarias Castil, que nos anos oitenta fizeram história em Lisboa quando apareceram os primeiros centros comerciais, como o Castil, o Alvalade ou o Fonte Nova. Eu não tinha, no entanto, qualquer memória daquele nome ligado à poesia do fado (mea culpa); e foi só muito mais tarde, quando comecei a fazer pesquisa para uma antologia de letras escritas por poetas eruditos (Esse Fado Vaidoso, que assinei com Aldina Duarte e saiu para o mercado em 2022), que descobri que Henrique Segurado também escrevera para Amália Rodrigues. Porém – é importante dizer –, a sua relação com a diva não foi apenas a de um mero letrista ocasional; fã confesso de Amália, era amigo do peito de Rui Valentim de Carvalho, e os dois eram frequentadores assíduos do camarim da estrela no Teatro Variedades, que se enchia todas as noites de admiradores e ramos de rosas. Com 17 e 16 anos, respectivamente, Henrique e Rui estavam ambos apaixonados pela fadista; e, um dia, sedentos da sua atenção, decidiram pedi-la em casamento no fim do espectáculo, explicando que ela era livre de escolher com qual dos dois queria dar o nó, pois eles eram amigos a valer e não se zangariam, escolhesse ela quem escolhesse. Amália, sensivelmente dez anos mais velha do que os rapazes, deve ter tido uma enorme vontade de rir perante o descaramento deles; mas, em vez de os mandar embora, disse-lhes que iria pensar e lhes daria a resposta no dia seguinte. Todos podemos imaginar a nervoseira dos dois pretendentes nas vinte e quatro horas que antecederam a revelação; mas essa não foi, nem de longe, a esperada. Estendendo-lhes um cartão com uma morada manuscrita, Amália pôs caras éria e explicou que se tratava do endereço do Liceu Maria Amália, onde estudava a sua irmã Odete (a Detinha), que – essa, sim – estava na idade ideal para namorar com um deles. Os rapazes ficaram embuchados, está claro, mas nunca se zangaram com Amália: Rui Valentim de Carvalho acabaria por tornar-se o seu principal editor discográfico quase toda a vida; e Henrique Segurado acabou por escrever para ela algumas letras, entre as quais o belíssimo Ano Luz, que a fadista rebaptizou como Seja Pedro ou Seja Paulo. …e que aqui transcrevemos para quem não conhece. Seja Pedro ou Seja Paulo Seja Paulo ou seja PedroTudo acontece na alturaE já vai crescendo o cedroOnde terei sepultura.Mas Pedro é bom de dizerLembra pedra, lembra Papa…A cidade onde eu morrerJá é um ponto no mapa.Vivemos emparedados– Bem triste realidade –Se à Terra estamos ligadosP’la força da gravidade.Cairo, Xangai, PontevedraMudam a nossa figura…Já terão talhado a pedraPara a minha sepultura? Ah! Como o tempo escasseia!Penso um ano num segundo.Todo o deserto é areiaNa ampulheta do Mundo… https://www.youtube.com/watch?v=ufzM3hi2Rr0 *A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico
By Álvaro Filho